Sobre o sabor das segundas-ferias

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Existe segunda-feira sem preguiça? Sem sabor? Sem quero mais feriado? Sem vontade de começar a semana? Tudo parece não querer nascer na segunda-feira.

Entretanto, numa segunda de algum mês e ano, ela nasceu diferente. Acordou devagar, lenta e com muita vontade de viver e ultrapassar todos os limites da extensão do tempo e espaço.

De manhã ela desafiou crianças brincarem no pátio e esquecerem de voltar para sala.

Contrariou a disciplina escolar para alegrar mais o coração.

As 12:00 a segunda sentou perto dos pequenos para perguntar desejos e sonhos. Enquanto todos degustavam feijão bem cozido sem sal, macarrão ao ponto de ferver com água branquinha e atum desfiado e bem amassadinho.

De tarde o sol brilhante fez pingar suor dos dedos, dos joelhos, dos pés de quem caminhava nesta segunda-feira elegante.

Não houve lugar no corpo que não transpirasse mesmo com o melhor ar-condicionado ligado para espantar o calor.

Até em pensamento caiu-se gotículas de água com cheiro de luta e caminho comprido.

A segunda corria lenta, mas com vontade de viver. Eis que chega às 15:49 horas. Foi o ápice dos 40º graus. E a cidade em obras cedeu ao silêncio. Tudo ficou leve e com paz.

As ruas ficaram em silêncio enquanto a segunda se apresentava na sua melhor curva estreita dos olhos.

Nem o copo de plástico que leva 150 anos para desintegrar natureza fugiu das suas perguntas insistentes sobre o interior de alguém invisível.

A segunda fugiu do controle das mãos dela que passava na rua México, Graça Aranha, Praça Cinelândia, Largo da Carioca e Central.


Ela percorreu os espaços sem ouvir barulhos dos carros, dos ambulantes, sem ouvir conversa alheia e muito menos os ruídos das máquinas cortantes de passado e transformadoras de um futuro “maravilhoso”.

Ela só olhava para cima e observou os prédios do Campo do Santana e Senador Pompeu. E pensou “o que fizeram com vocês, cadê as plantas? Cadê o realce das casas antigas? Quem será que morava ali?”.

Algo invadiu a segunda como tempero forte e marcante. Alguém temperou essa segunda demais. E agora quem vai comer esse prato?

Tem coisas na vida que imploram saudade no peito e para diminuir, talvez, seja saciado com a recordação de um sabor.

Como por exemplo, o amassador de feijão das tardes quentes de janeiro que viravam picolés. Os jamelões que tingiam as blusas velhas. A raspa amarelinha do arroz feita numa panela com fundo redondo.

Neste dia foi algo semelhante do que aconteceu em outra segunda-feira às 05:45 da manhã.

Onde o café foi preparado bem devagar, fogo baixo. Frigideira quente com manteiga. Enquanto água fervia para encostar no café e virar um corpo só, o pão de forma entrava em contato com a manteiga para dar cor e transforma-se “um pão moreninho”, tipo as torradas tostadas da Diana da “Princesa e o Sapo”.

Arruma a mesa para um. Toma-se banho e passa-se perfume e chega na sala com cara de surpresa com o café e o pão tostado.

“Quem será que fez isso para mim? Merece um beijo!”, pensa-se para enganar seus desejos.

Mas quando ela encontra o mel e despeja no pão tostado e abre a boca, seu desejo de acariciar lábios vermelhos às 06:05 da manhã minimamente realizado por alguns instantes ao fechar os olhos e lembrar dessa segunda e comparar com está segunda-feira.

Lugares, ruas, prédios, tijolos, trem, ônibus são feitos de sabores ou de segundas?

A língua pode identificar até 5 tipos de sabores: azedo, amargo, doce, salgado e umami.

Peço licença aos catedráticos e incluo na lista: sabor segunda.

Nota-se que esse sabor ocorre uma vez na semana e é provável que desaparece, entre em extinção, pois é perigoso demais esse sabor que tira pessoas do chão.

Imagina essa cidade com pessoas voando embriagadas de segunda.

Seu destino mais seguro é a terça-feira.

*Texto por Ana C. dos Santos Januário.

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