O tempo e a morte

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Tempo e morte

As duas únicas certezas de que dispomos em vida: a de que um dia a morte clamará por nosso nome e a de que a cada hora que passa, a cada minuto que flui, o fim faz-se mais próximo.

Diante do tempo e da morte, todos são iguais. A riqueza, a cor da pele, a beleza, ser homem ou ser mulher, ser criança ou ser adulto, ter ou poder. Nada importa. Aquilo que reside e decompõe sob sete palmos de terra jamais mudará, e é o que resta e restará de qualquer pessoa que gozou da experiência da vida.

As cirurgias e cosméticos milagrosos vêm para atenuar as cicatrizes da velhice, consequência de um transcorrer incessante das areias do tempo. O corpo definha. Os cabelos se embranquecem e caem. A mente se agita com o pensamento da morte e as inquietações existenciais atormentam as emoções como demônios que sussurram maldizeres aos ouvidos.

Diante de verdades tão perturbadoras, de fatos tão desconcertantes, onde e em que há de ser encontrado algum conforto? O que impede a busca pela satisfação dos mais lascivos e obscuros desejos, já que um fim imprevisível e inevitável revela-se diante dos olhos? Por qual motivo o suicídio aparece como uma fuga tão sedutora e como um instantâneo alívio da dor excruciante nos momentos em que as trevas tempestuosas serpenteiam o caminho da vida?

Perante a tantas perguntas, surgem alguns argumentos.

Da morte, restam as mágoas, a putrefação, luto, cinzas e ossos. Mas quem padece também deixa marcas nas memórias daqueles com quem conviveu, dos familiares, dos amigos e de pessoas que foram, de alguma forma, tocadas por sua existência. Basta um olhar histórico para que se notem as transformações e ideais proporcionadas por entidades que faleceram há tempos, mas ainda assim, influenciam e abrilhantam a dinâmica do mundo que nos circunda.

A estigmatização da velhice e das mudanças trazidas por ela ao corpo dá a um processo natural do homem a forma de uma criatura animalesca que deve ser combatida a todo custo. O botox vem suprimir a ação do tempo em tentativa vã, pois o que se consegue é apenas breve adiamento de um fim inevitável. Esquece-se de que com o envelhecimento do corpo, vem o amadurecimento da alma. A luz do caráter, da experiência, das relações, do conhecimento e da sabedoria torna-se, com o passar do tempo, mais intensa, e não seria isso um bem de valor muito maior?

Enxergar no suicídio um alívio das dores não seria apenas uma hipótese em meio a um oceano de dúvidas? Os rigorosos métodos das ciências ainda não descrevem o que sucede após o decesso. O que há de se pensar daquele que terminou a própria vida num momento em que a dissolução de seus conflitos estava tão próxima? Como viverão os familiares do suicida, senão em eterno luto e perpétua culpa?

Permanecem as reflexões, ao passo que a palavra de Edgar Allan Poe vem concluir estes modestos parágrafos:

“A vida real do ser humano consiste em ser feliz, principalmente por estar sempre na esperança de ser muito em breve”.

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