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Ter dinheiro

Tudo é descartável, pouco durável, e isso se aplica tanto no âmbito dos bens tangíveis e materiais, quanto no das relações. Os utensílios caem na obsolescência em velocidade impressionante, e os relacionamentos, tornam-se menos duráveis a cada dia. Estamos vivenciando uma explosão generalizada de transtornos relacionados à sensação de vazio existencial, e há alguns fatores importantes que estão relacionados a esse fenômeno.

O indivíduo é julgado e valorizado por suas possessões: as roupas com etiquetas de marcas famosas, o carro que dirige, os locais que frequenta e os círculos sociais em que está inserido. “Você é o que você tem”. Os efeitos negativos desta realidade são infinitesimais. As pessoas desenvolvem conceitos deturpados acerca da felicidade, e passam a buscar ela através do reconhecimento, do “status” e da posse. Seus corpos se tornam outdoors do capitalismo; o “eu” perde lugar para os bens e a autenticidade é ofuscada pela superficialidade das coisas. As relações se transformam em jogos de interesse, demonstrando-se tão voláteis quanto possam ser.

Por dedução puramente lógica, se os bens materiais se sublimam tão facilmente, se as posses são tão efêmeras, não seria estupidez que se busque por alegria de viver nessas coisas? Não tornar-se-á a felicidade tão finita quanto esses objetos? Se o feliz é aquele que é milionário – e estes são uma minoria -, então o resto do mundo é privado de gozar de sentimentos de júbilo e euforia? Quando o que me define é o carro, o camarote e a roupa, os amigos e amantes que me orbitam agora, ainda ali estariam se estas ninharias não mais existissem?

Também merece um olhar o advento da rede social. A praticidade que o recurso tecnológico traz é mal utilizada, e as interações humanas vêm sendo, de forma cada vez mais intensa, substituídas por conversas digitais. Os sorrisos, o toque, a espontaneidade, a linguagem corporal e a emoção de um diálogo olho-a-olho são lançados para longe, em detrimento da mensagem de texto. As pessoas anseiam por reconhecimento. Há nelas uma latente necessidade de se anunciar para o mundo onde estão, o que estão comendo ou fazendo. O ego se infla com as curtidas e comentários de fotos. O status de relacionamento da rede social ganhou dimensão gigantesca nas interações. O sujeito possui milhares de amigos no âmbito virtual, mas se sente solitário. Jovens garotas lançam fotos íntimas na internet, de forma proposital, almejando por seguidores.

Mais uma vez, a felicidade encontra sua fundação em pilares frágeis, construídos com o que é fútil e superficial.

A validação externa é de fato positiva, pois o ser humano está em constante busca em ser aceito e reconhecido. Está enraizado em sua natureza. O problema, porém, ocorre quando tal necessidade se torna a propulsão que o move a cada dia. O reconhecimento é a consequência de uma ação com méritos, e não uma causa.

É tentador dizer que estas linhas vêm com o propósito de crucificação do dinheiro, dos bens materiais e do capitalismo, mas o objetivo verdadeiro é apenas levar o leitor a uma reflexão maior. Diz a máxima popular que o “dinheiro não traz felicidade”. Tal discurso logo encontra sua ruína, pois a ausência do dinheiro traz miséria, fome e desamparo, e nesse contexto, a felicidade torna-se algo utópico, distante. Disseram-me que é necessário que se pague para que se experimente das “coisas que não têm preço”. Nada é mais verdadeiro, pois o capitalismo que nos circunda recompensa apenas àqueles que se mostram merecedores, e apenas estes, podem se sobressair no sistema vigente.

Percebe-se assim, que as pessoas estão associando a felicidade a coisas superficiais, externas e voláteis, e deste modo, a própria felicidade acaba por ganhar estas características, e quando ela se finda, emerge um profundo sentimento de angústia, insatisfação e vazio interior.

7 Comentários


  1. Valeu Marcelo por estar sempre abrilhantando minhas publicações!

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  2. incrível analise… Mais eloquente, impossível! Uma pena que poucos tenham essa percepção.

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  3. Aí, cara, ótimo texto!
    Palavras bem encaixadas, análise bem feita, conexão de sentidos boa. Ta escrevendo bem, hein! Expressando de forma clara e objetiva nada mais que interessantes pensamentos seus.

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    1. Igor muito obrigado por brindar meus artigos com estes comentários! Valeu pelo feedback!

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  4. Muito obrigado pela leitura e pelo comentário e feedback, é de grande importância!

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